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Cobra
 Taxonomia


Símbolo de temas tão diversos quanto regeneração, imortalidade, fertilidade, eternidade, astúcia e pecado, a cobra exerceu sempre grande fascínio sobre os homens ao longo da história.
Cobra é um réptil de corpo alongado e desprovido de membros, aberturas dos ouvidos, esterno e bexiga urinária. As mandíbulas são unidas na parte anterior, por ligamento, e os olhos imóveis e cobertos por escamas transparentes, sem pálpebras; a língua é delgada, bífida e protrátil. O nome cobra designa no Brasil os ofídios de maneira geral. É costume usar a palavra serpente para as cobras venenosas. Na Ásia e África, a designação "cobra" é restrita às espécies da família dos elapídeos, sobretudo as do gênero Naja.


Classificação. A subordem dos ofídios que, com a dos sáurios, constitui a ordem dos escamados, compreende três superfamílias: as dos escolefídeos, henofídeos e cenofídeos.
Os escolefídeos (adaptados à vida subterrânea), dividem-se em duas famílias: tiflopídeos e leptotiflopídeos, cujos representantes no Brasil são conhecidos como cobras-cegas ou mães-de-saúva.
A superfamília dos henofídeos abrange as famílias aniliídeos (cobra-coral), uropeltídeos (restritos à Índia e Sri Lanka), xenopeltídeos e boídeos (sucuri, jibóia).
A superfamília dos cenofídeos possui quatro famílias: a dos colubrídeos, a família mais heterogênea, na qual está a maioria dos gêneros -- aquáticos, arborícolas, terrestres e subterrâneos; a dos elapídeos; a dos viperídeos; e a dos crotalídeos (cascavéis, jararacas) etc.


Caracteres anatômicos e fisiológicos
Existem cerca de 2.500 espécies de cobras, das quais as de maior tamanho são as tropicais. As cobras vivem na terra, na água e nas árvores. Seu corpo é revestido de escamas, índice pelo qual são reconhecidas e classificadas. As da cabeça podem ser pequenas ou grandes; a parte inferior do corpo às vezes é coberta por escamas ou placas ventrais, geralmente maiores que as dorsais, lisas ou dotadas de carena, que é uma espécie de crista em forma de quilha. Nas espécies que têm escamas ventrais grandes, seu número corresponde aproximadamente ao das vértebras; mas o número de escamas ventrais varia mesmo entre indivíduos da mesma espécie. As escamas caudais podem formar uma ou duas fileiras. Na ponta da cauda há geralmente um esporão de formato variado, que na cascavel é um botão terminal de cobertura córnea, que a cada muda recebe mais um anel de pele, com que vai formando o chocalho, guizo ou crepitáculo. O número de anéis não indica a idade, mas o número de mudas por que passou.
As cobras mudam de pele várias vezes por ano, numa freqüência que varia segundo a espécie e as condições físicas do animal. Um ferimento na pele, por exemplo, pode provocar nova muda. A forma fina e alongada do corpo reflete-se em seus órgãos internos, como o pulmão, os rins, o fígado, e os próprios músculos, que são numerosos e relacionam as costelas e vértebras entre si e com a pele, para permitir sua extraordinária eficiência na reptação, que é o andar de rastos característico da cobra.
O esqueleto caracteriza-se pela redução ou, mais geralmente, pelo desaparecimento total das cinturas (escapular e pélvica) e dos membros. Com exceção da cabeça, os ossos são exclusivamente vértebras (que podem chegar a 400) e costelas flutuantes, que se articulam apenas às vértebras e têm a outra extremidade livre. A parede do corpo, extremamente elástica, pode distender-se consideravelmente porque, ao longo da linha ventral, não há nenhuma articulação entre ossos. A própria mandíbula é dividida em duas metades, presas uma à outra por um ligamento elástico.
Os ossos quadrados, que ligam a mandíbula ao crânio, e os palatinos, têm articulações frouxas. Tudo isso contribui para a enorme distensão que a boca pode suportar. Os dentes, inclinados para trás, evitam que a presa, enquanto é deglutida, possa escorregar para fora. Muitas cobras agarram a presa diretamente com a boca, num bote rápido. Outras usam o corpo para imobilizá-la (boas, muçuranas). A deglutição começa geralmente logo após a captura da presa e, em muitos casos, quando o animal ainda está vivo. A maioria das cobras aceita alimentação morta, ou acostuma-se a ela no cativeiro. As serpentes venenosas inoculam o veneno na vítima e matam-na quase instantaneamente. O veneno, ou peçonha, é uma saliva modificada, produzida por glândulas salivares situadas no maxilar superior.
Certas espécies apresentam entre o olho e a narina uma abertura denominada fosseta loreal, órgão termo-receptor, que permite localizar fontes térmicas, inclusive animais de sangue quente para sua alimentação. No Nordeste brasileiro, essas cobras são chamadas cobras-de-quatro-ventas.
Dentição e veneno. As cobras apresentam quatro tipos de dentição, do ponto de vista da capacidade de injetar a peçonha. Nas áglifas, nenhum dos dentes apresenta canal ou sulco para inocular veneno, e por isso elas são portanto inofensivas. Nas opistóglifas, um ou mais dentes são grandes e apresentam um sulco na parte anterior ou lateral, pelo qual a peçonha pode ser introduzida no corpo do animal capturado; mas é raro ocorrer morte por picada de serpente opistóglifa. As proteróglifas têm maxilar imóvel e dente (presa) anterior bem desenvolvido, com canal central (elapídeos, corais, naja, serpentes marinhas). Nas solenóglifas, o maxilar é bem móvel e a presa apresenta um canal funcional no centro. Com o movimento do maxilar, é colocada em posição perpendicular ao palato, quando a boca se abre no momento do ataque.
Na maioria das serpentes, a glândula de veneno está situada em cada lado da cabeça, ao longo do maxilar. Em certos gêneros (Maticora, da Malásia; Causus e Atractaspis, da África), as glândulas, em exemplares adultos, ultrapassam a região nucal e atingem, às vezes, a metade do corpo. A glândula de veneno é envolta em tecido conjuntivo rodeado por músculos, cuja contração, no momento da picada, espreme a glândula e provoca a saída do veneno.
Reprodução. Geralmente os machos e as fêmeas são externamente parecidos, mas algumas espécies apresentam diferenças no colorido e no desenho, número de placas, tamanho da cauda etc. Os machos têm órgão copulador (hemipênis) duplo e eversível. Em geral, as cobras não dispensam atenção à prole. Há, no entanto, algumas que protegem os ovos, como duas espécies brasileiras, a surucucu (Lachesis muta), que se enrola em volta dos ovos até a eclosão, e a Pseudoeryx plicatilis, espécie semi-aquática, que permanece perto dos ovos e ataca os intrusos.
As cobras nascem de ovos (ovíparas) ou vivas (ovovivíparas e vivíparas). O número de filhotes ou ovos varia entre três e cem, de acordo com a espécie. A maturidade é atingida em um ou dois anos em espécies pequenas e quatro ou mais anos, nas grandes. Há cobras de relativa longevidade. Foram registrados para a sucuri (Eunectes murinus), 29 anos; para a jibóia (Constrictor), 24 anos, e a cascavel (Crotalus terrificus), 23 anos.
Distribuição geográfica. As cobras são encontradas em todos os continentes, salvo na Antártica. O número de espécies é tanto menor quanto maior a altitude. No México, apenas duas espécies, uma não venenosa (Thamnophis sirtalis) e uma venenosa (Crotalus triseriatus), vivem em altitudes superiores a quatro mil metros. Nos Alpes, somente a Vipera berus ultrapassa três mil metros. No Himalaia, o crotalídeo Ancistrodos himalayanus, vive a 4.800m de altitude.
As espécies venenosas constituem cerca de um quinto dos ofídios, salvo na Austrália, onde estão em maioria, embora pertençam a uma só família (elapídeos). Sua distribuição é ampla: só não ocorrem no Chile, em algumas ilhas do Caribe, Madagascar, Nova Zelândia, Irlanda e